terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Suave penetrar



Um navegante experiente
Não necessita tão somente
Saber conduzir com segurança
Ou sequer mostrar pujança
Dizendo que nada o atormenta
Que nada teme
Quando seu navio avança
Em águas turbulentas
Ou próximo dos rochedos
Um navegante experiente
Necessita também saber apreciar
As delícias do mar
Conduzir a quilha de seu barco
Com suave penetrar
Nas ondas delicadas das marolas
Pelas águas quentes das noites de verão
E isso naturalmente o levará
A ser um apaixonante navegante



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Ao apagar do abajur



Dorme a dormideira
ao toque suave do luar.
Dorme a criança
na segurança do colo a ninar.
Dorme o pai cansado
do dia duro de trabalho.
Dorme a mãe aflita
agora que toda família dorme.



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Fiandeira do meu amor



Fios de todas as ideias
De modos e jeitos de ser
Fios de todos os sentimentos
De todas as lembranças
De todas as vivências
Um a um, todos bem tecidos
Bem trançados
Firmes e bem juntados
Resultam em uma vida
Bonita...
Gostosa de viver


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Navegar


Nos momentos de alegria
Desejo que todos os dias
Sejam iguais em euforia

Nos momentos de dor
Desejo com fervor
Jamais passar por esse horror

Navegar no grande rio
Traz alegrias e calafrios
Destino dos navegantes...


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Pessoas e peçonhas



Conheço pessoas felizes,
pessoas tristes
e tristes trastes de pessoinhas.

Conheço pessoas trabalhadoras,
que procuram trabalho
e que fogem do trabalho.

Conheço pessoas que prosperam,
que buscam prosperar
e que arruínam a prosperidade.





domingo, 14 de dezembro de 2014

Sofrido coração



Como livra-lo daquela raiva 
a invadir seu frágil coração?
Uma raiva maldita de força infinita.
Surge da faísca do desejo descumprido,
no curto pavio de um gosto desgostoso.
Atinge-lhe o paiol das amarguras guardadas,
sovadas, evitadas pelo diálogo que não vem.
Acumula-se a pólvora.
Favorece a implosão.
Favorece a explosão.
Aumenta a destruição.
Do coração do outro.
Do seu próprio coração.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Uma linda lição de amor


Pela terceira vez naquela semana Pedrinho estava atrasado e certamente iria ser advertido pela professora. Ele estudava numa pequena escola rural e sempre se distraia com as tantas coisas que via pelo caminho. Ou era num pé de goiaba que acabava subindo para se deliciar, ou eram os passarinhos que ele tentava imitar o canto, ou tantas outras coisas agradáveis.
Para evitar todo o aborrecimento que certamente iria ter com a professora, ganhava tempo cortando caminho passando por dentro do sítio do Seu Zé.
Naquela manhã ao se aproximar da casa do Seu Zé, percebeu que ele cuidava alegremente de sua horta.
Uma horta maravilhosa, com pezinhos de pimenta, pimentão, tomate, alface, couve, além de plantinhas de cheiro como tomilho, salsa, manjericão, alecrim, hortelã, orégano, cebolinha, cheiro verde e outras mais. Tudo aquilo conferia àquele espaço um tom inesquecível de beleza, frescor, cores e perfumes.  
Seu Zé estava tão entretido com a horta que nem percebeu quando Pedrinho tropeçou num galho seco, levou um tombo e deixou escapar um gemido de dor no joelho, que ficou todo ralado.
Conclusão, essa situação atrasou ainda mais Pedrinho, que ao chegar na escola, foi repreendido e recebeu um bilhete da professora para entregar aos pais.
Pedrinho mal conseguiu assistir a aula de tão furioso que ficou com aquela situação. Sua raiva era tão grande que para não sentir-se mal com seu próprio erro, resolveu colocar a culpa no coitado do Seu Zé, que não tinha nada com o caso.
Tão logo saiu da escola pensou: “vou passar de novo no Sítio do Seu Zé e vou dar-lhe o troco”.
Ao chegar lá sentiu o cheiro delicioso que vinha da horta do Seu Zé, que há pouco tinha sido regado.
Pedrinho ainda com aquela raiva no coração e também com um medo danado de ser pego fazendo malvadeza, deu uma corrida pela horta danificando alguns pezinhos daquelas lindas hortaliças. Depois saiu correndo, dando muita risada, rumo a sua casa.
Ao chegar em casa pensou mil vezes se entregava ou não o bilhete da professora para sua mãe porem, temendo as consequências ainda piores, acabou entregando.
Sua mãe leu atentamente o bilhete e disse-lhe:
- Pedrinho sua professora está me avisando que você é um menino educado, estudioso, que tira notas boas mas não tem chegado no horário correto. O que está havendo meu filho?
- São os passarinhos, as nuvens, as pedras e tantas outras coisas bonitas que vejo na estrada e acabo me distraindo e perdendo o horário mamãe.
- Realmente todas essas coisas são muito bonitas e devem mesmo serem vistas meu filho, porem vamos combinar o seguinte: você deverá sair mais cedo e assim dará tempo para tudo isso, sem perder a escola que também é muito importante.
Pedrinho mais do que depressa concordou feliz da vida.
Madrugada a dentro, todos dormiam profundamente, quando Pedrinho deu um imenso berro e acordou a todos de maneira assustadora.
Seus pais de imediato foram ao seu encontro acalmando-o. Pedrinho havia sonhado que tinha comido salada e que as plantinhas começaram a falar dentro da sua barriga, deixando-o apavorado.
Sua mãe explicou-lhe que todas as plantinhas que são colocadas na salada são para fazer bem para as pessoas e que jamais elas iriam querer assusta-lo. Isso foi o suficiente para Pedrinho acalmar-se e dormir tranquilo.
Conforme combinado Pedrinho saiu para escola bem cedinho e fez questão de passar na casa do Seu Zé. Encontrou-o novamente ajoelhado, cantando e cuidando de alguns pezinhos de pimentão. Percebeu que as plantinhas que tinha pisado já haviam sido replantadas.
Disse numa voz alegre:
- Bom dia Seu Zé!
Obteve também com alegria:
- Bom dia Pedrinho, está indo para a escola?
- Estou sim, mas antes queria dizer para o senhor que sonhei com as suas plantinhas. Contou-lhe o sonho que teve.
Seu Zé, entendendo tudo que na realidade havia se passado disse-lhe:
- Sabe Pedrinho há muito tempo atrás, quando eu era um garoto do seu tamanho eu tive um sonho igualzinho ao seu. Também fiquei muito assustado e, assim como no seu caso, meus pais também conversaram comigo. Me disseram as mesmas coisas que seus pais te disseram, e que se eu cuidasse com bastante alegria e carinho das plantinhas elas seriam minhas protetoras, igual “anjinhos da guarda” só que em vez de vir lá do céu vem de vários outros lugares. Alguns vem das aguas do mar, dos rios e lagos e são muito parecidos com os peixinhos, outros das florestas e se parecem com passarinhos e bichinhos, e todos são nossos protetores.
Está vendo porque eu canto tão feliz? Porque cuido direitinho.
Pedrinho deu um sorriso, um abraço no Seu Zé e foi para a escola com um novo propósito de cuidar de todos esses “anjinhos da guarda”.


domingo, 30 de novembro de 2014

Parque Vicentina Aranha



"Parque Vicentina Aranha" - anteriormente Hospital Geriátrico Vicentina Aranha (São José dos Campos/SP)

Autor: João de Azeredo Silva Neto
Copyright do autor










sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Tempos insuportáveis


O tempo se repete,
de maneira diferente.
Quem “arranca” estende a mão.
Pro “ajudado” fica onde corre o caldo sujo do sabão.
Dão-lhe uma empada de presente.
Com aquela ironia de sempre
e “ácida doçura” lhe falam:
você não é mais um ser carente!
Já tem café da manhã, almoço e jantar.
Já está de “bucho cheio”,
o que mais tem pra reclamar?
O tempo se repete,
de maneira diferente.
Dão-lhe farofa de presente.
Pra fechar de vez uma solução,
arrancam-lhe mais alguns dentes da frente.
Como boca estourada nada fala,
dão por encerrada a trágica reunião.
O tempo se repete
De maneira diferente



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

"Virgulino" em momento lúdico



"Virgulino em momento lúdico" - (Jacareí/SP)

Autor: João de Azeredo Silva Neto
Copyright do autor


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Memórias de uma querida vovó


Minha avó se foi.
Com ela muitas lembranças
de seu rico viver.
Minha avó se foi.
Com ela minhas esperanças
de muitas coisas saber.
Deixou saudade!
Esta não se calou,
perpetuou.
Oh...vó querida,
colhi tão pouco de sua memória,
de sua história, da minha história.
Momentos, você me ofereceu.
Eu não estava maduro, ...não sei, não aproveitei.
O que sei é triste.
Que sei que tão pouco sei.
Se o tempo voltasse
e eu como agora enxergasse,
eu diria: "minha adorável vovózinha
conta mais uma historinha,
também a sua história,
nem que seja só mais uma vezinha".


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Margarida, Violão e Cavaquinho


No dia do meu enterro,
vou levar meu cavaquinho    
e o meu violão.

Acho a Margarida muito boa!
Não desafina, não destoa,
dela também não abro mão.

Eu vou pro céu com muito amor!
Lá prá cima vou casar,
se a Margarida me dizer “sim”.

Vou fazer o meu convite,
mas já tenho um palpite:
que ela não vai aceitar.

Se isso acontecer,
vou falar ao Salvador
que eu não viajo sem o meu par.

Se isso acontecer,
vou pedir ao Salvador
que por aqui quero ficar.

Eu não vou mais não,
por aqui eu vou ficar
e com Margarida me casar.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Coração de criança


Coração de criança,
esperando carente, impaciente,
para sorrir novamente
no próximo Natal.




terça-feira, 18 de novembro de 2014

O nariz do Bulhões


Uma vez conheci um nariz, um formoso nariz..., o “nariz do Bulhões”.
Seu nariz não era um nariz qualquer, com dois buracos convencionais. A forma e o estilo também não eram convencionais.
Para ser bem sincero, Bulhões não tinha nada de convencional, mas vamos nos ater só ao nariz, que já será de bom tamanho.
Certa vez ouvi dizer que Bulhões havia feito um seguro para o seu nariz, pois temia que algo pudesse acontecê-lo longe de suas vistas. 
Quando Bulhões necessitava de cuidados nessa área era sempre pra valer.
A ajuda tinha que ser de bom tamanho.
A voz do Bulhões também era algo diferenciada pois tinha uma voz grave, forte e anasalada. Parecia que vinha de suas entranhas.
A linha de perfil de seu nariz tinha um contorno único, digamos, generoso.
Começava próximo dos olhos, ia avançando e depois arredondando, mas... sempre avançando.
Quando atingia o ápice do avanço, a linha voltava subitamente para o rosto, terminando próximo dos lábios.
Esta descrição refere-se ao contorno.
Vejamos agora na largura. Eu diria que “de boas proporções”. Farto na largura e farto nas ventas.
Quando Bulhões assoava seu nariz é que se tinha a real dimensão desse quesito.
Os pelos daquelas grandes ventas eram aparados com constância e isso lhe dava um trabalho fenomenal. O acesso aos pelos era fácil, o difícil era dar conta da abundância.
Confesso que certa vez tive pensamentos mórbidos a respeito desse nariz e que até hoje me ressinto disso. Pensei na quantidade de algodão que um dia seria necessária para preencher aquele par de ventas.
Finalizando vocês poderiam dizer: eu não achei nada engraçado!
E eu lhe digo: é que você não conhece o nariz do Bulhões, ou será que conhece?

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Agradecimento a todos os meus leitores



Este blog foi criado no dia 13 de janeiro de 2008 e o meu primeiro artigo foi “http://joaoazeredo.blogspot.com.br/2008/01/no-h-espao-para-superficialidade.html

Dias depois, 29 de janeiro de 2008 publiquei “http://joaoazeredo.blogspot.com.br/2008/01/aos-tantos-brasileiros-jos.html

Foi reativado somente em 16 de abril de 2014 com o meu artigo “http://joaoazeredo.blogspot.com.br/2014/04/nosso-telefone.html


Hoje quero agradecer e comemorar com todos os meus estimados amigos leitores a marca de mais de 3.000 visualizações em vários países, conforme o registro abaixo.

País/Visualizações
Brasil
2135
Estados Unidos
669
Alemanha
92
Rússia
39
Ucrânia
22
Polônia
21
França
10
Portugal
8
Espanha
4
Reino Unido
4


Um grande abraço a todos


João Azeredo

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A mentira



A mentira é um “boneco” oco com o coração de pedra e a cabeça de fogo.
Não possui vísceras e nem entranhas.
Já foram consumidas pelo aparente doce fel da ilusão, que castiga e corrói com a sua acidez os alicerces da construção.
Qualquer esperança num futuro é pura quimera em algo que nunca haverá de acontecer.
Não haverá sol, tarde ou noite.
Uma luz que nunca irá surgir no horizonte.
Somente os dias sombrios, nublados pela mesmice triste e sem graça do não viver.







sábado, 8 de novembro de 2014

Poder, bravatas e fantasias



Um poder capaz de decidir destinos, vidas.
Uma palavra, uma assinatura ou até mesmo um simples gesto basta para sacramentar suas decisões.
Entrava, saía, sem pedir passagem.
Mandava, cumpria-se.
Anos e anos seguidos; mandava, cumpria-se.
Ao seu gosto teatraliza-se simples, singelo e acolhedor.
Ao seu gosto exibe-se “in persona”, sua frieza, seu calculismo implacável e impiedoso.
Estratégias! Mecanismos de rei macabro.
Não um rei de comando, mas de mandos, um pseudo-rei e por esse e demais motivos, exige titulações e honrarias.
Rei real não impõe. É naturalmente entronizado. Não se prende ou se cansa com o peso do cetro, coroa e nem mesmo do pomposo traje real. Utiliza tais apetrechos de honrarias com leveza, diferentemente do falso rei que a ostentação pesa-lhe as ancas.
Assim seguia seus dias, sem traumas ou remorsos.
Não foi posto pois fez-se rei, com poderes de rei.
Não foi deposto e sim, “decomposto”.
A “decomposição” é uma substância poderosa, implacável, porem justa. Não faz discriminações, trata a todos por igual, elemento fatal para este tipo de rei. Nivela-o as pessoas, as coisas e a tudo mais que se decompõe. Coloca-o morto em vida e, do que vale um rei morto?
Que poder tem um rei morto?
Para um falso rei: N e n h u m!
Um rei de “carnaval”, eventual, de fantasia, que necessita manter-se rei. Diferente de um rei real que são imortais pela beleza de sua realeza.
A verdade nua e crua é que esse rei foi “decomposto” e assim, perdeu seu posto.
O rei ficou inerte a ação dessa substância soberana.
Tentou fazer valer daquele seu antigo poder. Em vão!
Ficou impaciente e irritado. Vociferou, desesperou, até que sem forças, usou o último recurso do rei decomposto: “a ilusão”.
Mergulhou em bravatas inglória e nas fantasias de seus dias de nefasto rei de outrora.
Conheço muitos reis postos por legitimidade.
Grandes monarcas, reais reis! Que comandam, agregam e libertam seus súditos com maestria e requinte.
Uns se vestem de batinas ou togas negras, outros de branco da camisa ao sapato, outros de colarinho branco e gravata, outros até com simples macacão cinza e capacete de fibra multicor.         
Mas infelizmente também conheço alguns desses falsos reis, que usam os mesmos trajes para aprisionar e ceifar esperanças de pessoas que apenas desejam ser felizes.



sábado, 1 de novembro de 2014

Dr. Eugênio Estrôncio - (seriado – parte 4 - fim)


- Sim, sim, atrapalhava muito o meu foco. De madrugada era o momento que mais a mulherada pipocava a minha cabeça.
- Mas como o senhor conseguia ter cabeça para a ciência e pesquisa então? Sua mente parecia pervertida Dr. Estrôncio?
- Sim, confesso que era muito pervertida, obsessiva.
- Esses pensamentos cansavam-lhe a cabeça?
- Eu ia a fadiga, me tiravam totalmente do foco. Agradeço muito ao Dr. Freud e a Viena, pois do jeito que minha cabeça funcionava eu não teria condições de ir pra frente em coisa alguma. Está vendo, curadinho! Hoje estou em foco no mundo todo.
- E hoje no que mais o senhor pensa além da ciência?
- Na senhorita.
- Em mim, como assim? Está pensando alguma bandalheira de mim?
- Não senhorita! Estou pensando em que momento irá começar a me perguntar sobre ciência. Também estou pensando em logo retornar para Viena. Viena, quantas saudades você me traz! 
- Doutor Eugênio Estrôncio estou recebendo aqui no “meu ponto” uma informação da direção do programa, que nosso tempo de entrevista acabou!
- Acabamos nem tocando em ciência que é justamente o tema primordial do programa Dr. Estrôncio.
Sua presença custou uma fortuna para a nossa emissora e agora também poderá custar o meu emprego!
O que o senhor pode dizer para salvar-me desta situação horrorosa Dr. Eugênio?
(Dr. Eugênio de maneira calma e serena)
- Acho que a senhorita dá muita atenção para essa questão de farra e mulherada, está parecida comigo antes do tratamento. 
Isso acaba com a concentração!
Sugiro que vá morar em Viena minha filha e fazer psicanálise com os discípulos do meu estimado Dr. Freud.
- Por que o senhor fala tanto de Viena e do Dr. Freud?
- Porque aquele que não se foca no que tem, um dia acaba sem.
- Realmente Dr. Eugênio eu me desconcentrei, em ciência eu nem toquei, dancei...
- Não desanima não minha filha, porque houve solução até pra mim!.....Fim

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Dr. Eugênio Estrôncio - (seriado – parte 3)


- Sim, sim! O Dr. Freud, a exemplo dele próprio, me recomendou que eu também morasse em Viena. Um homem muito sábio! Sapientíssimo.
- Com quantos anos o senhor iniciou o seu tratamento com o Dr. Freud?
- Com dezesseis, em Viena. Eu era muito nervoso antes de morar em Viena.
- Ah..., então a tranquilidade veio em decorrência do tratamento?
- Não, em hipótese alguma. Foi o tratamento com o Dr. Freud e a magnificência de Viena que me curaram do nervoso. O resultado foi um espetáculo!
- Conversando com o senhor e vendo a sua imensa tranquilidade como eu estou aferindo aqui nesta entrevista, quem diria que o senhor um dia foi nervoso. Quanta mudança Dr. Eugênio!
O que no passado o deixava tão nervoso assim, a ponto de sair de seu país e fazer tratamento com o Dr. Freud?
- As mulheres.
(Larissa Helena não se contém e libera uma imensa gargalhada)
- As mulheres?
Olha aqui geeennnnte, uma notícia de primeiríssima mão.
Fui cutucando, cutucando e o Dr. Estrôncio abriu o jogo hein!
As mulheres! Com dezesseis anos apenas e o senhor já tinha problemas com as mulheres Dr. Estrôncio?
- Sim, sim.
- Mas como assim? Conta essa história pra gente Dr. Estrôncio?
- Com as mulheres, muitas mulheres, uma mulherada danada, um tormento sem fim.
- Dr. Estrôncio por favor explica isso melhor, como foi isso?
Sem sombra de dúvidas, estamos diante de um furo de reportagem dos bastidores do mundo científico minha gente!
- Não, não minha filha! Essa notícia foi dada em primeira mão há muitos anos atrás no Jornal Tribuna do Povo, lá em Viena. Excelente matutino!
O Dr. Freud ajudou-me a libertar-me daquelas amarras e Viena foi o cenário perfeito. 
Eu mesmo chamei a imprensa e falei. Houve afeto e acolhimento para as minhas questões.
Viena, hospitaleira Viena!    
- Bem...hã, hã, (Larissa Helena totalmente desconcertada) mas devido ao tempo transcorrido, talvez fosse bom relembrarmos isso tudo então?
O Brasil quer saber, era uma tara Dr. Estrôncio?
Por que o senhor ficava com tantas garotas nessa idade? O garotão Eugênio era insaciável?
- Sim, eu ficava com muitas. Um mundão delas.
- Transava com tão pouca idade com essa mulherada toda? Meeeuuuu Deus! Que louuuucura!
- Não... não, eu não transava com ninguém. Eu pensava, pensava, pensava o tempo todo só em mulher.
Dia e noite pensando na mulherada. Pensava na farra e na esbornia. Era uma loucura mesmo.
- Mas as informações que eu disponho é que o senhor se envolveu com a ciência e a pesquisa ainda muito jovenzinho.
- Está escrito aí?
- Sim, nosso departamento jornalístico levantou estas informações. Diante do que está nos revelando precisamos ter a real certificação diretamente de sua boca.
- Os jornais de Viena são bem mais precisos! Impecáveis nas informações! Acerta a sua fichinha aí então. O que ocorria é que junto com a ciência a mulherada esquentava também os meus pensamentos. Muita mulher, ou melhor, pensamento em mulher. Viena é uma delícia também no inverno, um frio que necessita de um bom calor para agasalhar a mente.
- O senhor que prega tanto o “não perder o foco”, o “tem que ter foco”, pensava tanto assim em mulheres? Isso não o atrapalhava justamente de focar nos estudos?
- Sim, sim, atrapalhava muito o meu foco. De madrugada era o momento que mais a mulherada pipocava a minha cabeça.
- Mas como o senhor conseguia ter cabeça para a ciência e pesquisa então? Sua mente parecia tão pervertida Dr. Estrôncio?


Vide parte 4

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Dr. Eugênio Estrôncio - (seriado – parte 2)


- E o que o senhor vai fazer agora diante da perda desses dados?
- Nada.
- Nossa Dr. Estrôncio como o senhor consegue manter-se tão calmo e sereno diante de uma perda tão significativa assim?
- Morando em Viena.
- Dr. Estrôncio outra coisa admirável é como o senhor consegue produzir um trabalho científico dessa complexidade em tão pouco tempo?
- Tem que ter foco minha filha. Não pode perder o foco.
- E como o senhor consegue isso?
- Morando em Viena.
- Mas vamos para outras perguntas, pois a minha pauta é imensa e não é sempre que temos o Dr. Estrôncio por aqui para falar de ciência pura e de alto nível.
Dr. Estrôncio todos nós sabemos que o senhor é o cientista mais velho em atividade no mundo. A pergunta que não quer calar é a seguinte: quantos anos o senhor tem? Afinal de contas tamanho conhecimento científico não é para qualquer um.
- Bem..., eu contei até os cem anos, depois parei de contar. As caixinhas de velinhas só contêm cem velinhas..., daí achei bobagem comprar duas caixinhas por causa de uma velinha e acabei não comprando e não contando mais.
- O senhor procura tratar esse assunto com um “sorrisinho irônico” nos lábios. Será que por trás dessa atitude o senhor não esconde que o peso dos anos começou a te incomodar?
- Não, não escondo não..., os anos não me incomodam em nada mesmo. O que está me incomodando neste instante é outra coisa.
- Opaaaa...escutem aí um segredinho que vai escapar! O senhor poderia nos confidenciar?
(Dr. Eugênio Estrôncio levanta e senta-se novamente)
- O que estava me incomodando era este cabo do microfone bem no meio da minha bunda.
- Peço-lhe imensas desculpas por essa situação tão inconveniente Dr. Eugênio. Produção por favor uma assistência aqui para o doutor.
- Nem precisa ajuda alguma, eu mesmo já dei um basta nisso. Não atrapalhou o som aí?
- De maneira alguma Dr. Estrôncio.
- Como o senhor é tão livre e descomplicado?
- Viena contribui muito para isso.
- Já que o clima pende para isso então vamos descontrair nas perguntas.  Conte-me aqui em segredo Dr. Estrôncio. Depois de ficar dois anos longe do país, o que o senhor está achando das nossas lindas mulheres? Destas o senhor deve ter sentido saudades, afinal o “bumbum” das brasileiras é invejado no mundo todo!
- Não estou achando nada. As mulheres de Viena são exuberantes.
- Bem... (limpando a garganta e sem saber o que perguntar) ... Doutor Eugênio Estrôncio, ensina para todos os nossos telespectadores, qual o segredo do senhor estar tão conservado assim?
- O segredo é morar em Viena.
- Bem...hãhã... (Larissa Helena limpa novamente a garganta, já bem incomodada com o fato do Dr. Eugênio falar tanto e tão bem de Viena) hãhã...
Dr. Eugênio é verdade que o senhor fez análise com o próprio Dr. Freud?
- Sim, em Viena.
- Então seria este o motivo de tanta tranquilidade e paz de espírito?
- Sim, sim! O Dr. Freud a exemplo dele próprio, me recomendou que eu também morasse em Viena. Um homem muito sábio! Sapientíssimo.
- Com quantos anos o senhor iniciou o seu tratamento com o Dr. Freud?


Vide parte 3

domingo, 26 de outubro de 2014

Dr. Eugênio Estrôncio - (seriado - parte 1)


Larissa Helena – Entrevistadora do Programa C&E Television
- Boa noite!
Estamos iniciando o programa Ciência e Evolução, hoje nosso convidado é mais do que especial, é o famoso Dr. Eugênio Estrôncio.
O Dr. Eugênio Estrôncio já foi convidado há mais de dois anos e somente agora está nos dando a honra de sua presença.
Ele está de passagem pelo Brasil para uma série de entrevistas em universidades e em algumas mídias científicas.
Nós do Programa Ciência e Evolução somos felizardos por tê-lo em primeiríssima mão.
Nos honramos Dr. Estrôncio pelo fato de uma pessoa tão famosa e requisitada no mundo científico ser brasileiríssimo como o senhor.
Dr. Estrôncio como é para o senhor ficar tanto tempo longe do Brasil, morando em Viena e vindo tão poucas vezes nos visitar?
- Bom! Muito bom, Viena é uma maravilha!
- Dizem que quem conhece desta água jamais esquece. Isso é verdade Dr. Estrôncio?
- Eu não sei como está a água daqui e por isso eu trouxe diversos galões de água de Viena que é um espetáculo! Boa mesmo!  
- Mas o senhor não sente falta da sua terra natal, do seu povo? Do cafezinho, do feijão preto, do samba, das mulheeeeeres brasileeeeeeiras?
- Não, nadinha de nada. Sinto muita falta mesmo é de Viena.
- Então o senhor não sente falta de nada no Brasil?
- Sinto, sinto sim.
- Ah bom, que susto Dr. Estrôncio! E do que o senhor sente falta?
- Neste instante do meu notebook, que roubaram agora pouco no aeroporto quando fui tomar um cafezinho. Ah...deixa eu ver, da carteira também, acho que “me bateram” depois que paguei o cafezinho. É....acho que até então é só isso.
- Muito triste Dr. Estrôncio que situações como essas tenham acontecido justamente com o senhor, que há tanto tempo não visitava a sua terra natal.
- Mas o senhor percebe que houve muitas mudanças para melhor por aqui, não é Dr. Estrôncio?
- Não percebo não, em Viena está bem melhor!
- O bom de tudo isso é que o senhor está agora aqui conosco, firme e forte como sempre.
Realmente o senhor tem razão de estar chateado pois é tão duro a gente ficar sem o notebook. As vezes nem é pelo valor do aparelho, mas pelos dados tão importantes que a gente acaba perdendo. Eu fico imaginando o notebook de um ilustre cientista e pesquisador como o senhor, repleto de cálculos e formulas preciosíssimas.
- Somente os meus cálculos finais de 935 páginas a respeito da estrutura molecular da atmosfera de Saturno que a NASA me encomendou na semana passada.
- Então são dados muito importantes e secretos?
- São sim.
- Com certeza o senhor deve ter cópias de segurança de dados tão complexos e importantes assim?
- Não, não tenho “nenhumazinha”, só aqueles originais que estão no notebook mesmo.
- E o que o senhor vai fazer agora diante da perda desses dados?
- Nada.
- Nossa Dr. Estrôncio como o senhor consegue manter-se tão calmo e sereno diante de uma perda tão significativa assim?


Vide parte 2

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Viver novamente



Meu coração chorou,
chorou muito, chorou forte.
Contrição de morte,
pelo nunca que chorou.

Doeram os nós dos meus dedos,
do tanto que bateram na porta.
Uma, duas, as vezes não importam,
até que se abriram os segredos.

Agora aquele fechado coração
distante, frio, ausente,
chora feliz em vertente,
de viver tanta emoção.



domingo, 14 de setembro de 2014

Tardes de maio


"Tardes de maio”
material utilizado: acrílico e papel vergê

Autor: João de Azeredo Silva Neto



Sobreposição



"Sobreposição”
material utilizado: giz pastel e papel vergê

Autor: João de Azeredo Silva Neto




quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Uma história doce como um “pastelzinho de Belém”



Dona Aparecida voltava para casa com sua costumeira dor nas pernas e sua crônica tossezinha.  Não perdia a missa diária das dezessete horas e, tão logo escutava o “vamos em paz”, levanta-se escutando “o senhor vos acompanhe” já na porta, para evitar as aglomerações na saída.
Era muito aflita, não suportava filas e sua tolerância ao esperar era zero.
Durante a missa suas orações e cânticos eram sempre na frente do padre e dos demais fieis.
Por ter uma voz aguda ela sempre acabava se destacando formando um efeito acústico irritante.
Não era seu costume transitar fora de casa na companhia da escuridão, fosse só ou acompanhada. Tinha verdadeiro pavor de se resfriar, assim sendo nunca se atreveu abusar da temperatura da noite, alegando ser muito sensível e vulnerável a tais exposições.
Orgulhava-se de seus costumeiros e cautelosos hábitos, pois mantinham-na sempre protegida dos perigos horrendos da pneumonia e da tuberculose. Atribuía tais doenças aos boêmios, aos desvirtuados morais, aos mundanos e pecadores, companheiros das lascívias da noite.
Conforme o costume passava na padaria do Seu Manoel e levava uma baguete, fazendo questão de frisar “bem queimadinha”.
Seu Manoel era viúvo, bem mais velho que Dona Aparecida e sempre fez questão de transparecer seu encantamento pela arredia senhora. Ora com um elogio, ora com um olhar cobiçoso, ora com uma sugestiva proposta de “deixa pra lá Dona Cida a baguete fica por minha conta”, pronunciado com um simpático sorriso e com seu carregado e imperdível sotaque lusitano.
Essa condição deixava Dona Aparecida muito desconcertada, com as faces num imenso rubor, denunciando de imediato seus mais latentes sentimentos.
Pegava a baguete, pagava e tentando esconder até de si mesma sua satisfação ao cortejo, saía gesticulando e falando palavras desconexas que até pareciam repúdio.
Seu Manoel adorava aquela encenação toda de Dona Aparecida e sentia-se realizado e viril.
Gabava-se de seu “borranchincho” e de sua velha forma de abordagem.
Enrolando o farto bigode e cantarolando dizia: "deu certo com a finada Maria, assim haverá de dar com a minha almejada Cidinha".
Dona Aparecida tão logo chegou em casa, ligou a televisão em um desses programas populares de tragédias da vida diária. Não perdendo o que se falava foi esquentar sua sopinha.
O apresentador ia reforçando os fatos dezenas de vezes, com formas auditivas e visuais diferentes, para obter a garantia que a pobrezinha da Dona Aparecida não se livrasse dele e daquelas macabras informações trocando de estação.
Mal começava a primeira novelinha da noite ela já estava num cochilo lascado no sofá.
Costumava ir para cama por volta das vinte horas e no dia seguinte levantava-se bem cedo.
Suas atividades do dia a dia eram rotineiras e metódicas.
O que realmente mudava o quadro daquela rotina eram as investidas apimentadas do Seu Manoel que agitavam os sonhos da Dona Aparecida.
O tempo foi passando e entre perseverança, muitos gracejos e baguetes do Seu Manoel, a seduzida já estava com o coraçãozinho mexido.
A essas alturas já se deixava ser chamada, sem resistências, apenas de “Cidinha”.
Ela perambulava após os cultos livremente pelo outro lado do balcão, quer servindo os fregueses, quer no caixa, onde rolava até furtivas beijocas.
A relação estava indo tão bem, que o seu garboso “Manoel” lhe ensinou os segredos de seus consagrados bolinhos de bacalhau e, até mesmo dos pasteizinhos de Belém.
A padaria já era um sucesso do bairro, mas com o apoio da Cidinha “bombava” muito mais.
Eles faziam planos, deliciavam-se com as conquistas e tudo que acontecia entre os dois era plenamente comemorado com alegria pelos habituais fregueses.
Era uma graça vê-los fechando a padaria por volta das vinte e três horas e indo abraçadinhos embora.
Manoel a deixava na porta de casa, dava-lhe um acalorado beijo, deixando-a pronta para varar a noite com sonhos repletos de confeitos de malícias e travessuras.
Foi que numa bela tarde, padaria lotada, Cidinha proclamou em alto e bom som o seu imenso amor pelo Manoel.
Ele não se contendo de paixão, aproveitando os aplausos e sorrisos da galera, abriu de imediato a gaveta do caixa e retirou um estojo vermelhinho que guardava há muito tempo.
Abriu, mostrou para a sua Cidinha e disse num sotaque que deu gosto a todos de ouvir: Aceitas se casar comigo Cidinha?
O povão vibrou e a Cidinha amou a proposta, dizendo um belo e audível “SIM”.
Lógico, saiu um longo beijo e muitos aplausos.
Proclama cumprido, fregueses, amigos e até mesmo o padre aguardavam ansiosos na porta da igreja do bairro.
Toca-se a música e entra a Cidinha deslumbrante toda de branco, como era o seu sonho secreto desde criança.
Quem passa pela padaria do Manoel e da Cidinha, pode testemunhar até hoje essa linda história de amor, uma história doce como um “pastelzinho de Belém”.



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