terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O curador da Praça do Largo do Riachuelo

 



Há 25 anos em um curso de pós-graduação em São Paulo, o reitor da universidade que eu estudava entrou na sala de aula, acompanhado de um simpático senhor.

 Ele era baixo, cabelos grisalhos, aparentava uns 74 anos de idade, de origem italiana, formado em história e antropologia.

Elegantemente trajava um belo paletó xadrez de lã no estilo escocês, com as pontas de um lenço de seda bordô aparecendo no bolso frontal. Não havia vulgaridade ou excessos em seu trajar, pelo contrário, havia beleza, equilíbrio e distinção. Concluindo seu visual, usava também um cachecol e um belo par de sapatos marrom com impecável brilho.

Iria nos dar uma palestra cujo tema era: “a reconstrução do belo”.

Antes de iniciar ele fez questão de apresentar a sua esposa, que tomou acento ao lado de nosso reitor e demais convidados de honra.

Ela era alta, magra, aparentava uns 67 anos, pele e cabelos muito claros e seus olhos possuíam uma tonalidade azul claro indescritivelmente bela.

Trajava um vestido fino de lã no tom cinza claro, sapatos de salto alto, como adorno apenas um delicado colar, uma pulseira e aliança. Deslumbrante!

Sua maneira de gesticular era delicada, sua voz possuía um timbre suave e se apresentou dizendo ser austríaca, formada em literatura anglo-saxônica e finalizou agradecendo a oportunidade daquele momento. Precisa, com poucas palavras.

Ele veio para o Brasil na condição de curador de uma exposição de obras de arte, representando um conceituado museu europeu.

Demonstrava um incrível conhecimento e segurança no que dizia, assim como uma imensa facilidade na ordenação desses conteúdos.

Embora falasse com uma voz suave e calma, em certos momentos como todo bom italiano, diante de certos temas, se deixava envolver numa vibrante empolgação. Seus sentimentos de pesar ou de alegria se afloravam e contagiava a todos. Parecia que estávamos com ele no momento do fato.

Entre tantas coisas magníficas que disse, uma eu senti como se tivesse dito somente para mim.

Comentou com grande emoção e lágrimas a respeito das belezas de sua pequena cidade natal. Relembrou com detalhes o pequeno chafariz em mármore de Carrara, construído durante o império romano. Uma obra pequena, delicada, uma preciosidade que atraia pessoas de vários lugares do mundo para vê-la, tal era o seu poder de encanto.

Durante a segunda guerra mundial, a sua bela cidadezinha e outras próximas, vivenciaram uma noite de horror, com horas de intenso bombardeio. A dor maior foi quando os moradores puderam sair de seus abrigos e vivenciar a dimensão de destruição de uma guerra.

Além das perdas inestimáveis de parentes e amigos, aquele precioso patrimônio cultural, entre outros, também havia sido destruído.

Após a guerra, os moradores resolveram reconstruir aquela preciosidade e foi necessário muito tempo, envolvendo união, esforço e dedicação.

Muitos pedaços estavam soterrados, outros encontrados bem distantes, mas a verdade dos fatos é que foram garimpados, peneirados, catalogados, juntados um a um até que aquela obra tão bela e impregnada de significados pode ser novamente admirada. 

A palestra teve continuidade, mas lembro-me ainda com emoção, que tão logo ouvi aquela história pensei na beleza de nossa “Praça Elvira Lopes da Costa”. Acho que todos nós merecemos uma “Fonte de Encantos” e daquele momento em diante, assim se tornou para mim o aprazível “Largo do Riachuelo” aqui de Jacareí.

Hoje, muitos anos após aquela memorável palestra, quando passo por ali, que delícia ver que essa “Nossa Charmosa Praça” está tão bela.

Todo o entorno da praça dá suporte para a manutenção e realização de eventos culturais de toda natureza, durante o ano inteiro.

Em função de sua pequena dimensão e diante das tantas atividades culturais que ali se realiza diuturnamente, ao longo do tempo “Nossa Pracinha” foi naturalmente buscando apoio das ruas Treze de Maio e Antônio Afonso, envolvendo generosamente a Praça Anchieta na participação plena desse cenário cultural e turístico.

Assim também ocorreu com as ruas Luiz Simon e Vicente Scherma, esta última inclusive cedeu a sua antiga fábrica de tintas e hoje abriga um maravilhoso centro de exposições, com mostras de nossos famosos cactos, de toda gama de trabalhos de nossos artistas plásticos, de nosso rico artesanato cerâmico, inclusive as famosas “Paulistinhas”, trabalhos fotográficos e outras belezas mais.

Nas manhãs de sábado e domingo nosso acolhedor Largo do Riachuelo, acabou se transformando na “famosa feira Benedito Calixto do Vale do Paraíba.

A Academia Jacarehyense de Letras promove diversas atividades literárias, tais como: declamação de poesia, varal de poesia, café literário, sarau literomusical, concursos literários inclusive de abrangência internacional.

As casas que antes serviam para moradia na Praça do Largo do Riachuelo, Praça Anchieta e ruas adjacentes, hoje se destinam basicamente a fortalecer a atividade turística e cultural de Jacareí.

Aí vemos com vigor a riquíssima atividade gastronômica de nossa cidade, com restaurantes, botecos e barzinhos servindo, inclusive e com requinte, o nosso famoso patrimônio “bolinho caipira”.

Jacareí é uma cidade hospitaleira e berço de cidadãos de todas as etnias, assim sendo essas riquezas também são vislumbradas na diversidade de suas músicas, poesias, cores, gostos, temperos e sabores.

Nessa região cultural da cidade, para todas as idades e gostos, vemos apresentações de grupos de teatro, dança e música, não só realizados ao ar livre como em ambientes fechados.

Durante todo mês de junho a cidade fica repleta de turistas que vem para participar das já famosas noitadas dos “Seresteiros Apaixonados” que se unem a poetas, populares e turistas, todos apaixonados cantores, que saem da Praça do Largo do Riachuelo para uma imensa “Serenata Pelas Ruas da Cidade”

Uma delícia de se ver, ouvir e participar!

Ao longo desses anos, essa forte e bela atividade turística cultural, vem trazendo significativo progresso econômico para a cidade, atraindo não só turistas como investidores financeiros.

A rede hoteleira e gastronômica não só melhorou como ampliou. O comércio em todos os setores teve uma expansão significativa. Ganhamos uma fábrica de produtos musicais, capital nacional, incluindo instrumentos de sopro de alta tecnologia e qualidade, o que há muito tempo era esperado pelos músicos brasileiros, principalmente porque o Brasil é um dos maiores produtores e consumidores de sua própria música no mundo.

Bem vindas também, foram as duas novas empresas do setor cerâmico artesanal, de esmerado requinte, que fazem no inverno a sua grande “Festa Noturna de Abertura dos Fornos”, atraindo muitos turistas.

Claro que tudo isso aumentou em muito, a arrecadação de impostos para a nossa querida Jacareí e consequentemente estão sendo revertidos em melhorias significativas para o próprio turismo, educação, saúde e segurança. Muitas oportunidades de emprego foram geradas com essa prospera atividade turística cultural.

Todas as vantagens desse novo poder aquisitivo são sentidas pela população, com a concretização de seus anseios e conquistas familiares.

Realmente, conforme meu estimado preceptor de pós-graduação sabiamente falou “a reconstrução do belo”, possui um poder infalível de gerar requintes.

Requintes na arte de unir pessoas, de humanizá-las, de torna-las mais sábias, felizes e prósperas em todos os sentidos.

 A minha história envolvendo o meu professor é real, a da Praça do Largo do Riachuelo é real quanto a sua beleza e charme. Também é real a do povo de minha estimada Jacareí quanto ao seu imenso valor humano e laboral.

Quanto ao restante dessa história, a realidade acontecerá a partir de nosso garimpar, peneirar, catalogar, juntar todas as partes preciosas dessa “nossa pracinha” tão bela.

Assim poderemos apreciar pra valer, todos os devidos significados e requintes que a “Praça do Largo do Riachuelo” quer e pode nos oferecer.

 

Autor: João de Azeredo Silva Neto

Membro da Academia Jacarehyense de Letras

Cadeira nº 4 – Patrono: Orlando Hardt



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