sábado, 1 de julho de 2017

O outro lado do mundo também está aqui


Um dia destes escutei uma mãe dizer que deixara de pagar seu convênio saúde para ajudar seu filho na conclusão de um curso profissionalizante.
Falou com alegria que era um curso importante para o desenvolvimento do seu filho.
Aquelas palavras ficaram por dias e dias reverberando nos meus pensamentos, muitas ponderações surgiram a respeito deste tão significativo momento.
Quantas aprendizagens essa mãe também pôde me proporcionar. Muitas.
Qual é a dimensão do amor de uma mãe?
Grande, extraordinária, imensa, infinita..., qual o tamanho?
Envolto em tantos pensamentos a respeito, lembrei-me de um determinado momento da minha vida.
Eu devia ter uns seis anos de idade, minha mãe foi de madrugada no meu quarto, me viu ainda acordado e perguntou:
- não está conseguindo dormir meu filho? O que está acontecendo?
- estou com medo mãe...
- do que meu filho?
- de um ladrão entrar aqui em casa...
Minha mãe refletiu por alguns instantes e disse-me:
- você está ouvindo um apito sendo tocado lá na rua meu filho? (Era o apito do policial, da antiga Força Pública, que vigiava as ruas no período noturno)
- sim...
- quando o apito está sendo tocado dessa maneira é porque não tem nenhum ladrão por perto e que podemos dormir tranquilos. Pode dormir tranquilo meu filho!
Beijou-me e ficou ali ao meu lado até que eu dormisse.
Foi algo realmente mágico, com um poder infinito de aplacar a angustia de um filho.
Tempos passados, angústia de filho, sofrimento de mãe.
Tempo atual tudo tão igual, angústia de filho, sofrimento de mãe.
Mudou o mundo, o desconforto da dor não mudou.
Trocar seu próprio sono, depois de um dia atribulado de afazeres da casa, pelo sono tranquilo de um filho, trocar seu tão necessário convênio saúde pelo desenvolvimento de um filho, me parecem tão natural, tão espontâneo para o coração de uma mãe amorosa.
Mães que fogem da guerra com seus filhos ao colo, atravessam o deserto vivenciando a dor da miséria, a sede, a fome, o desamparo da fronteira cercada de armas e arames farpados, mas que não fogem da sua condição de mãe.
Mães maltratadas, da pele ressecada, enrugada pelas tantas intempéries da vida, dos seios flácidos, mas do cerne firme que não desamparam o filho na dor.
Mães que buscam na vertente inesgotável do “amor” a força para tanto estímulo de viver, gerar e manter a vida de seus filhos.
A essas mães é que dedico estas minhas palavras.


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